A CIGANA DA CATEDRAL
Por Igor David Sá
Para as mulheres ciganas, o milagre mais importante da vida é o da fertilidade, na medida em que não concebem suas vidas sem filhos. Quanto mais filhos a mulher cigana tiver, mais dotada de sorte ela é considerada pelo seu povo, tanto que tê-los acaba convertendo-se na principal função do sexo. A pior praga para uma cigana é, pois, desejar que a mesma não tenha filhos.
Os ciganos se casam cedo, quase sempre seguindo acordos firmados entre as duas famílias. Tende-se a escolher o cônjuge dentro do próprio grupo ou subgrupo, com notáveis vantagens econômicas. Com o olhar desconfiado, Ruth deixa escapar que foi casada com um engenheiro durante treze anos e que não sofreu nenhuma repressão da família por ter se unido a um não-cigano. No entanto, atualmente, dele ela só quer distância.
Sozinha, Ruth passa suas manhãs e tardes na praça da catedral de Aracaju, jogando cartas e lendo as mãos das pessoas que por ali passam. A prática da quiromancia – leitura das linhas das mãos – para o povo cigano não é um mero sistema de adivinhação, mas, acima de tudo um inteligente esquema de orientação sobre o corpo, a mente, o espírito, a saúde e o destino.Sua única fonte de renda é a leitura de mãos e cartas que, de acordo com ela, só é feita por quem já nasce com o dom; “vem do interior da minha alma”, diz ela. Ruth revela como é a rotina de ler a sorte em público: “As pessoas têm medo, fico meio sem jeito. Tem pessoa que maltrata, xinga, chama palavrões comigo. Às vezes tenho que sair de perto. Me chamam de ladra de criança, fico acanhada com isso. Só ficam criticando, mas não sou nada disso”, desabafa a cigana.
Os ciganos crêem na força do destino, contra a qual não adianta lutar. Seu maior elo de ligação com o “sagrado” é a lua cheia, quando acontecem celebrações em torno de fogueiras, com muita dança e oração. Por falar em oração, a padroeira universal dos ciganos é Santa Sara Kali, por quem nutrem o mais devotado amor e respeito. Para eles, Sara possui a pele negra, daí ser conhecida como Sara Kali, a negra.
A história do povo cigano costuma ser pouco abordada publicamente pela sociedade. Em termos históricos, é misteriosa e em geral mal documentada, em parte porque seus dialetos não têm registro escrito. Paradoxalmente, para alguns ciganos isso significa um trunfo de preservação de uma identidade fechada e exclusiva.
A cigana da catedral não quis revelar sua idade, tem aversão a fotos ou qualquer tipo de câmera ou aparelho eletrônico. Ao contrário do que muitos pensam, não gosta de aparecer. Sua personalidade é nômade, entretanto, tem residência fixa. Acredita, como todos os ciganos, na vida após a morte. Quando morrer, quer apenas que coloquem uma moeda em seu caixão, para que possa pagar ao canoeiro a travessia do grande rio que separa a vida da morte.
Subindo a rua Capela, centro da cidade, Ruth segue em direção ao terminal da Rodoviária Velha, cabelos presos, lenço estampado na cabeça, uma infinidade de pulseiras, batom exageradamente roxo, uma longa saia florada. Ela está voltando pra casa, depois de mais um dia na Praça da Catedral peregrinando em busca de mãos.

